Eu tenho 40 anos, nasci em 1971. Considero como a minha geração gente nascida mais ou menos entre 1965 e 1975, gente que tem hoje mais ou menos entre 35 e 45 anos. Nós temos algo em comum, fomos formados pelas mesmas coisas: Trapalhões e TV Pirata (e não por Chavez e Casseta & Planeta), por Star Wars (e não por Star Trek), por Sítio do Picapau Amarelo (e menos por Vila Sésamo e por Balão Mágico), por Hanna Barbera (e não pelos animes japoneses), por Jerry Lewis e Terence Hill na Sessão da Tarde (e não pelos sitcons da TV a cabo, que ainda nem existia no Brasil, nem por Shazam & Xerife, ainda em preto e branco), por Zico e não por Pelé, por Legião Urbana e não por Mutantes nem por Skank.
Eis a pergunta que eu gostaria de fazer aqui, de público, aos meus companheiros de geração – o que nós produzimos de relevante em termos culturais? Que marca nossa geração está deixando impressa na alma do Brasil? E eu mesmo respondo. Nada. Nenhuma. Somos agora os machos adultos alfa (tanto que estamos lendo esta bela revista) do pedaço, os pilares e os motores da nação. Estamos ficando com as têmporas charmosamente grisalhas, dirigindo carros bacanas, chacoalhando relógios legais. Somos a geração que está recolocando o Brasil no mundo, que está tirando o país da sua histórica condição de piada – tanto aqui dentro quanto lá fora. Mas, vem cá, qual é a mitologia que nós criamos? Que ídolos sugiram entre nós e que vão se perpetuar? Quem são nossos herois, os nossos arquétipos? E eu mesmo respondo. Nenhuma. Nenhum. Ninguém.
Nós não estamos deixando marca alguma na música, nas artes, na cultura. Somos uma geração pequena. Ínfima em termos de manifestações que captam, marcam e traduzem o espírito de um tempo e que fazem a história. E que não está deixando nenhuma herança, nenhuma contribuição anímica relevante para a próxima geração. Não implantamos nenhum paradigma para ser superado por eles. Nós não fizemos nenhuma revolução, não trouxemos nenhuma voz nova ao microfone. Somos uma geração conservadora, de manutenção – e não uma geração renovadora, de ruptura.
Olhemos para a música. No auge da geração dos nossos pais, há 30 anos, em 1981, Chico Buarque tinha 37 anos e já era um baita, imenso, tremendo Chico Buarque. Idem para Caetano, para Roberto Carlos, para Gil, todos desta geração que sepultou a antiga música que se fazia no Brasil e que inventou a MPB, a Bossa Nova, a Jovem Guarda, o Tropicalismo. O Rock Nacional, que talvez tenha sido o último fenômeno geracional relevante ocorrido no Brasil, aconteceu nos anos 80 e foi muito curtido por nós. Mas, a rigor, ele foi produzido por outra turma, nascida mais ou menos entre 1955 e 1965, gente que hoje tem mais de 50 anos. Quem está escrevendo os hinos que definem a nossa geração? Quem está compondo aqueles versos e refrões que levaremos para sempre impressos em nossa alma? (Já disse, Renato Russo não vale.)
Vale o mesmo para o cinema. Nunca fizemos filmes tão legais no Brasil. Mas Walter Moreira Salles, de Central do Brasil e Abril Despedaçado, é de 1956. Fernando Meirelles, de Cidade de Deus e Domésticas, é de 1955. E aqui chegamos talvez à única exceção à regra: José Padilha, de Tropa de Elite e Ônibus 174, que é de 1967. Boa, Zé, viva, você nos redime. De resto, nós, toda a vasta manada de quarentões brasileiros, não temos estatura, não temos peso, não temos solidez, não estamos criando legado algum.
Olhemos para o mundo das letras. Veríssimo tinha 45 anos em 1981. E já era surgia como um monstro. Tinha quase 20 livros publicados, estava criando o Analista de Bagé naquele ano, já havia criado Ed Mort, já escrevia nos principais jornais do país e estava prestes a iniciar sua coluna histórica em Veja. Qual é o Veríssimo da nossa geração? Quem nos influencia, quem nos faz pensar, quem nos faz rir (de nós mesmos)? Aparentemente, como geração, nos falta formação, estofo, inspiração. Aparentemente, como geração, nos falta talento, brilho, faísca. Somos um pouco como o Santos no obscuro intervalo entre Pelé e Robinho. Somos um pouco como o Inter no medíocre intervalo entre Falcão e Fernandão. Somos um buraco, uma barriga, uma lacuna histórica, nos destacamos sobretudo pela falta e pela tibieza.
Olhemos para outros campos da vida. Fernando Gabeira tinha 40 anos em 1981. Contava em livro a revolução interna que havia experimentado no exílio e mexia com a cabeça de toda uma geração, introduzindo nas conversas temas e ideias totalmente alienígenas à época: política do corpo, respeito às liberdades individuais, uma nova visão sobre sexualidade, sobre alimentação natural, sobre o uso de drogas. Gabeira tinha a coragem da sua geração. De romper, de enterrar o velho, de inventar o novo, de atualizar os discursos, de propor mudanças, de correr riscos. Que é a mesma coragem de Caetano e Gil metendo guitarra suja no samba.
E nós? O que criamos? Que ruptura implementamos? Que contribuição deixamos? Por isso o mundo desses caras é tão mais interessante e rico e sedutor do que o nosso. Por isso eles continuam sendo referência, e continuam sendo ídolos e catalizando as atenções, mesmo aos 70 e tantos anos de idade, quando talvez já quisessem diminuir a luz dos holofotes e descansar um pouco. É que nós fracassamos fragorosamente em substituí-los à altura. Não tivemos competência suficiente para fazê-lo. Nostra culpa.
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Artigo publicado originalmente na Revista Alfa, muito bem dirigida pelo grande Kiko Nogueira.

Não só a sua geração fracassou, mais a minha também esta destinada ao fracasso!
O que temos hoje:
Compositores da moda: MC Serginho, MC Catra & Cia.
Desenhos e seriados prediletos: Animes Japoneses e Chaves.
Politicos, pensadores e escritores: Não existem.
Fiquei pensando: será que não é devido a ditadura e a turbulência que o Brasil passou, além claro da nossa mudança cultural, que esta geração mais nova não ficou tão representativa, ficou restrita?
Sem contar também que justamente graças a louvar demais o passado, não conseguimos tentar criar algo novo ao futuro. Nosso referencial está com “eles”, os “experientes”, aqueles que viveram mais que nós. Pode ser que estamos nos limitando aos limites que eles impuseram, ao invés de tentar arriscar e fazer algo bem diferente. Se bem que parando para pensar, se alguém faz algo diferente, bate contra o conceito conservador. Aí fica a questão, será que não temos medo de ousar, já que ousando poderíamos ser considerados diferentes, lascívos?
Outra: será que no final temos mesmo o que ousar? Será que não ousamos até demais? Estamos nos questionando qual é o limite?
A grande maioria das “celebridades” atuais tem aproximadamente a sua idade, 30, 40 anos. E os poucos pensadores mesmo que tem nesta idade creio que estão bem escondidos ou ainda anônimos pela internet ou pela vida mesmo.
Obrigada por trazer esse assunto à baila.
Não acredito que sejamos uma geração fracassada. O nosso tempo de “dar frutos” expressivos pode estar logo ali adiante. Afinal, nenhuma geração viveu até os 40 anos, tantas mudanças expressivas em termos de informação como nós vivemos. Por isso esse “ápice dos quarenta” também não é mais padrão.