
Trabalhar de graça significa se deixar explorar. Atenção com os corsários do tempo e do talento alheios. Está cheio desse tipo de gente por aí.
Nos últimos meses recebi quatro propostas para trabalhar de graça. Pois é. Você leu certo. Trabalhar sem receber.
Duas delas, para palestrar. Em lugares distantes – do tipo que você precisa pegar avião e percorrer depois muitos quilômetros de estrada para chegar. É curioso como os palestrantes, peças fundamentais em eventos ligados à educação e especialização profissional, quase sempre são convidados a trabalhar de graça. Somos as peças de resistência do cardápio de encontros, simpósios, congressos e afins, somos as grandes atrações do cronograma de painéis e jornadas disso e daquilo, e, no entanto, dificilmente ocorre aos organizadores dedicar parte da verba a recompensar seus palestrantes condizentemente.
Fiquei pensando, diante dessas duas propostas semiescravagistas, que talvez os organizadores tenham entendido que eu não vivia disso, não era um profissional do palco, e, portanto, poderia ceder gentilmente 24 ou 36 horas do meu tempo a colaborar com seus rendez vous. Então, como “amador” (embora aqui no Manual eu me apresente oficialmente como um palestrante e esteja cadastrado em duas ou três agências de conferencistas), eu poderia levar a eles as minhas apresentações, que condensam alguma dose de inteligência sobre os assuntos sobre os quais discurso, angariada e lapidada ao longo de anos, de modo gratuito. Ora, eu sou um profissional do conhecimento. Eu vivo do que conheço. Acumular conhecimento custa dinheiro. Invisto tempo nisso. É o meu talento, a minha competência central. (Viver, mesmo que à toa, o que não é o meu caso, custa dinheiro, para começo de conversa.) Então partilhar esse conhecimento deveria ter um preço – nem que seja como mera forma de fazer a conta fechar e seguirmos todos adiante. Esse tipo de convite é um jeito estranho de elogiar e destruir o convidado ao mesmo tempo: “lembramos de você, venha, queremos ouvi-lo, mas desde que você tope vir de graça, porque em hipótese alguma nós vamos lhe pagar algum dinheiro por isso”. Diante desse paradoxo, que faz um carinho e cospe na cara ao mesmo tempo, o convidado fica na dúvida: eles gostam do meu trabalho, tem interesse em ouvir o que eu tenho a dizer, ou me consideram apenas um zero que não merece mais do que zero e que só estão chamando sob a égide do zero?
Esses dias li um tweet de Augusto de Franco em que ele reclamava da mesmíssima coisa – ele, um consultor, tanto quanto eu; ele, um palestrante possivelmente com mais anos de estrada do que eu, respondia publicamente ao convite que havia recebido para palestrar de graça para uma empresa. Como se ele vivesse de vento, não tivesse contas a pagar, como se seu tempo não valesse nada e como se o seu acúmulo de conhecimento, tornado palestra, fosse algo ordinário, comum, fácil de encontrar debaixo de qualquer pedra na rua. Um cara que planta batatas tem o direito de receber pela batatas que fez crescer. Um pensador não tem o direito de cobrar pelas sínteses e pelo insights e pelas teses que produz. Aí vi que o problema era crônico. Ou que, pelo menos, não acontecia só comigo.
Na maioria dos casos, esses convites partem de eventos que se apresentam como não tendo fins lucrativos. O que é sempre uma meia verdade. Normalmente, há, em algum nível, uma instituição privada por trás. Que mesmo que não vise lucro com aquele evento especificamente, visa, sim, algum tipo de retorno com aquilo, nem que seja uma melhor imagem para a sua marca, ou um relacionamento melhor com determinado público que lá na frente vai lhe render alguma coisa. Eis, então, o que está por trás desse tipo de convite: a turma faz generosidade com um recurso que pertence a você; entregam você de graça para uma determinada audiência. Todo mundo ganha, de alguma forma, nesse processo. Menos você. Mesmo quando a instituição por trás não é privada, há sempre um objetivo de, em não lucrar, pelo menos não incorrer em prejuízos com o evento. É quando a organização procura patrocinadores e apoiadores. Então há sempre uma verba, algum tipo de equação econômica montada em torno e por trás desses eventos – mesmo os mais amadores. Os custos são computados num orçamento a ser coberto pelos parceiros – não raro cobram-se inscrições dos participantes também com o mesmo fim de empatar receitas e custos. Então um monte de gente recebe o seu: o hotel, a companhia aérea, a empresa que provê alimentação e bebidas, as recepcionistas, os manobristas, o pessoal que filma e fotografa, a moça que limpa o salão e os banheiros etc. Nenhum desses fornecedores é chamado à graciosidade. Só os palestrantes mesmo é que são proibidos de enviar seus orçamentos. Somos os únicos fornecedores que ficam de fora da planilha de custos. Banido da possibilidade de ver o seu trabalho remunerado minimamente. Os únicos, enfim, que são chamados à abnegação e ao favor. Sou obrigado a pensar, então, que essa indústria funciona como uma espécie de Hollywood esquisita em que os produtores imaginam que os atores e diretores e roteiristas tem que trabalhar de graça. Você aluga a câmera, o estúdio e a iluminação, e paga motoristas e eletricistas e cabeleireiros, só não tem verba mesmo para pagar quem vai escrever, dirigir e estrelar o filme. Alguém, por favor, poderia me explicar a lógica?
Uma vez Max Gehringer, um dos palestrantes mais requisitados do país, me disse que esse mercado funcionava assim: se você tem nome, pode cobrar 50 000 reais por hora e meia de conversa. Todo mundo vai pagar na boa. Se você não tiver nome, terá que se oferecer em troca de uma garrafa de água mineral morna colocada sobre a mesa. Não haveria meio termo nessa indústria, segundo Max. Porque se a palestra de um cara de 50 000 reais é mal recebida, o problema é do palestrante, que estava num dia ruim. Ou da plateia, que interagiu mal. O problema nunca é de quem contratou o cara – porque, afinal, ele era e continua sendo o cara. O contratante fez o que tinha que fazer. E outros fatores determinaram a ruína do evento. Já se uma palestra com o Adriano Silva vai mal, a responsabilidade é toda de quem inventou de escolher esse sujeito. Quem? Adriano… Silva? Hein? Quanto você pagou? Onde você estava com a cabeça?
As outras duas propostas para trabalhar de graça que recebi por esses dias foram relativamente mais indecorosas. Ambas, mais ou menos com o mesmo padrão: o sujeito chamou a minha empresa, cujo histórico e cujos cases eu apresentei a ele. Me chamou na pessoa jurídica, e não na física. No CNPJ e não no CPF. Ele me ouviu, me serviu um cafezinho e me disse, na cara dura, que eu deveria investir nele, como cliente. Que eu não ganharia nada para fazer aquele trabalho que ele estava demandando mas que era uma oportunidade de crescer junto com ele – com o que eu ganharia muita visibilidade para a minha empresa se fizesse um trabalho bem feito para a empresa dele. Mas como investir num cliente que lhe faz uma proposta dessas? É preciso entender que uma parceria assim não é uma parceria. E que um relacionamento que começa abusivo desse jeito não vai levar a lugar algum. E me lembrei que em lugares mais civilizados, como nos Estados Unidos ou o Japão, até quando você vai fazer um favor para alguém essa pessoa faz questão de lhe retribuir de alguma forma. Há um respeito muito grande pelo tempo e pelo trabalho da outra pessoa. Coisa que nos falta por aqui.
Outra situação, bem diferente dessa, é fazer trabalho voluntário. Coisa que faço e recomendo. Mas aí é doação de tempo e competência que você faz por uma causa ou por alguém. Não é apropriação indevida das suas horas e do seu talento por outro agente econômico – que não tem sequer a decência de lhe enxergar da mesma forma.
Havia 20 anos que eu não ouvia uma barbaridade como aquela. Desde quando eu era um garoto em início de carreira e ouvi de algum desses cavalos velhos que deveria trabalhar de graça, ou quase isso, para ganhar “experiência”. Duas décadas depois, tive o desprazer de ouvir de novo essa ladainha deselegante. Apenas trocando “experiência” por “visibilidade”. Não agradeci ao sujeito mas deveria tê-lo feito – pela excelente oportunidade que me deu de lhe dizer um rotundo “não”. (Eu gosto tanto de dizer “sim” e fazer negócios e me engajar em projetos que quase não digo “não”.) Então aquilo foi quase uma catarse para mim. E, para ele, saiu barato. O que eu queria mesmo ter dito a ele era uma outra coisa.
Boa noite, Adriano
O brasileiro adora explorar o próximo, sem um pingo de vergonha.
A cada dia, que leio seus artigos, me torno mais sábio.
Um abraço.
Parábens Adriano; reflexão correta :a terra do malandro, termos “marketólogos”, visibilidade,parceria,crescer juntos, sinergia, potencial, adjetivos que viraram neurolinguística. E as pessoas nem ficam vermelhas em
falar isto, abraços
Olá Adriano,
É realmente usufruir do trabalho alheio nem nenhum pudor. O pior é ver que isso acontece sempre, em várias esferas: na família, no trabalho, até com amigos… Todo mundo quer tirar uma casquinha!
Sou sua fã desde sempre! Seus artigos já esclareceram tantas questões minhas, e até hoje me ajudam a sobreviver na selva corporativa. Isso precisa ser valorizado!
Abraços,
Vixe. Cansei de ouvir propostas assim. “A gente não pode te pagar agora, mas considere que você estará crescendo junto com uma empresa que tem tudo para dar certo” (como se todas as empresas tivessem nascido como o Google). Sei, sei. E sabe do que mais? Nem ficam vermelhos ao propor. No começo, ficava comovida com tamanha generosidade, de ver alguém pensar tanto no meu futuro. Depois, aprendi a cair fora. Ótimo texto, Adriano. Deveriam imprimi-lo e afixá-lo nos murais das faculdades – se é que algum formando ainda cai nesses contos. Abraço!